Conflitos em condomínios

Conflitos em condomínio

Como evitar que confrontos escalem para a violência

O caso da morte da corretora de imóveis Daiane Alves Silva, em Caldas Novas, em Goiás, vítima de um tiro disparado pelo síndico do condomínio onde morava, rompeu a bolha do mercado condominial e expôs ao país como a convivência em condomínios pode ser desafiadora.

A relação entre os dois já era marcada por conflitos antigos, com diversas ações judiciais em andamento e boletins de ocorrência registrados. A corretora chegou a ter o fornecimento de energia cortado pelo síndico por vários dias.

Um crime bárbaro como esse choca o país. No entanto, é importante reconhecer que muitas pessoas vivem em situação constante de conflito dentro de seus próprios lares, em condomínios. Seja envolvendo moradores ou síndicos, é essencial que existam mecanismos capazes de impedir que esses confrontos ultrapassem limites aceitáveis.

“De repente, eram duas pessoas normais que se descontrolaram. Não dá para, em uma situação assim, deixar só para o síndico resolver”, explica Sergio Meira, diretor de condomínios da vice-presidência de Administração Imobiliária e de Condomínios do Secovi-SP.

Para o especialista, a participação ativa da comunidade pode ser decisiva nesses casos.

“Quando o síndico persegue um morador, ou está tomando decisões que podem ser consideradas inadequadas, o conselho deve restringir, sim. Falar ‘gostaríamos que sobre o assunto x, você não decidisse sozinho. Se ele não aceitar, não se moldar, é destituição’, aconselha.

Para a síndica profissional Tania Goldkorn, a atenção de toda a coletividade é fundamental para coibir comportamentos predatórios.

“Nesse caso em questão, o conflito condominial não foi tratado. Passou por toda a massa condominial e não houve ação. Quando há uma comunidade forte e participativa, a cultura é de os próprios moradores dizerem ‘no nosso prédio não pode fazer isso, não aceitamos condutas violentas’, o que ajuda, principalmente quando é um vizinho atacando o outro”, explica.

Vale destacar que conflitos em condomínios não envolvem, necessariamente, os síndicos e podem ocorrer também entre vizinhos.

“A convivência mais leve e respeitosa deve ser sempre a primeira opção. Viver em coletividade não é fácil, mas, se escolhemos morar em condomínio, teremos que tolerar certas coisas. Não é como morar sozinho”, pontua o advogado especializado em condomínios Fernando Zito.

A tolerância na convivência deve, de fato, nortear as relações em condomínios — e o síndico deve ser o principal exemplo disso.

Síndico profissional e conflitos em condomínio

Para Otavio Lourenço, diretor comercial e de marketing da Advanced Síndicos Profissionais, que conta com cerca de 50 síndicos profissionais na equipe, é fundamental que, no caso desse modelo de gestão, a empresa ofereça acompanhamento tanto ao profissional quanto ao condomínio.

“O ideal é que o status da relação entre cliente e empresa esteja sempre sendo acompanhado. Por isso, quando percebemos que um conflito começou a escalar, colocamos em ação alguém de um cargo superior em ação. Quando começam os níveis de insatisfação, ele aparece em assembleias, reuniões de conselho e até em reuniões privativas com os moradores envolvidos na situação”, exemplifica.

Com esse tipo de acompanhamento, o relacionamento com o cliente fica resguardado — assim como a saúde mental de todos os envolvidos.

“Uma coisa que percebo também é que quanto mais experiente é o síndico profissional, menos problema ele ‘caça’ para si. Com a experiência, vêm também mais ferramentas para lidar com situações adversas”, observa Lourenço.

Isso porque, muitas vezes, a escolha por um síndico profissional está associada ao desejo de uma gestão com menos emoção e mais racionalidade — evitando, por exemplo, o desconforto de o síndico morador encontrar no elevador o vizinho que multou.

“O condomínio opta por síndico profissional pela impessoalidade, mas também podem achar que o modelo é impessoal demais. O síndico profissional cumpre mais as regras, porque se espera que ele entregue mais resultados”, pontua Keila Silva, CEO da Destra Administradora.

Esse rigor no cumprimento das normas pode, inclusive, se tornar um gatilho para conflitos mais intensos.

“Às vezes, deixar a coisa mais leve funciona mais do que seguir a cartilha ao pé da letra. Uma conversa, pessoalmente, ao invés de logo notificar, pode ajudar a construir uma cumplicidade. Claro que temos que cumprir as regras, mas em condomínio a união entre pessoas muito diferentes é fundamental. Soluções mais rígidas e radicais às vezes só pioram”, pondera Sergio Meira.

Comunicação em condomínio

A comunicação é, como sempre, uma aliada fundamental para a paz condominial.

“Por melhor que seja o padrão do condomínio, é uma habitação coletiva. E sempre deve haver uma comunicação clara e objetiva”, analisa Sergio Meira.

Reforçar as regras do empreendimento em diferentes canais de comunicação, mantendo os moradores constantemente informados, pode ser uma estratégia eficaz para evitar conflitos decorrentes do descumprimento das normas.

“Tem que ter muito comunicado para reforçar o que é permitido ou não”, sugere Fernando Zito.

Em tempos de comunicação acelerada, especialmente por meio de grupos de WhatsApp, o cuidado com a forma e o conteúdo das mensagens torna-se ainda mais necessário — sobretudo em grupos grandes.

“Hoje em dia, com os grupos de whatsapp, é muito fácil passar do limite. Tive um caso recente que um morador colocou no grupo do condomínio que o mesmo precisava de uma auditoria, porque era claro que estava precisando. Morador vai ter, agora, que se retratar no grupo”, relata o advogado.

Conflito aberto em condomínio: o que fazer?

E quando, mesmo com cuidados preventivos, um conflito envolvendo o síndico ultrapassa os limites aceitáveis?

Para Keila Silva, esse é o momento de a administradora atuar diretamente.

“Se já aconteceram tentativas de conversas amigáveis que falharam, a administradora pode tentar fazer essa ponte, esse trabalho de mediação. Ouvimos, filtramos e levamos para as partes. Caso também isso não funcione, recomendamos envolver o jurídico, porque isso tem outro peso. Os envolvidos falam com mais cuidado”, avalia.

Outra alternativa é investir em mediação e conciliação profissionais. “É uma boa alternativa antes de judicializar um conflito”, afirma.

Caso o síndico seja o foco do problema e a insatisfação da coletividade seja generalizada, há a possibilidade de destituição.

“A qualquer tempo é possível chamar uma assembleia extraordinária. A administradora é obrigada a convocar, com um quarto dos condôminos pedindo”, destaca Sergio Meira.

Quando o conflito envolve um morador que desrespeita reiteradamente as regras e compromete a convivência coletiva, é possível enquadrá-lo como morador antissocial e ingressar com ação judicial para sua exclusão do condomínio.

Como se observa, há diversos caminhos para buscar soluções menos beligerantes nos condomínios. É fundamental que não apenas o síndico, mas também o conselho e toda a massa condominial se envolvam na resolução dos conflitos internos, evitando desfechos extremos.

“Agora, a unidade do síndico do caso lá de Caldas Novas foi toda depredada, o hall também foi quebrado. Além de uma violência enorme que já havia acontecido, o condomínio vai ficar desvalorizado”, conclui Tania Goldkorn.

A violência, definitivamente, não é um caminho para a resolução de conflitos em condomínios — nem mesmo como resposta a outra violência.

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