Se aprovada, a mudança, prevista para entrar em vigor em 2026, retira o caráter opcional do modelo e impõe um desafio logístico e financeiro sem precedentes para síndicos e administradoras
O cenário energético brasileiro está prestes a passar por uma de suas transformações mais profundas da última década, e o impacto promete ser sentido diretamente no caixa dos condomínios residenciais e comerciais. Uma proposta da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), atualmente em fase de consulta pública, pretende tornar a Tarifa Branca (modelo de tarifa horária) o padrão obrigatório para consumidores de baixa tensão com consumo superior a 1.000 kWh mensais, perfil onde se enquadra a esmagadora maioria das edificações coletivas do país.
Se aprovada, a mudança, prevista para entrar em vigor em 2026, retira o caráter opcional do modelo e impõe um desafio logístico e financeiro sem precedentes para síndicos e administradoras: a gestão por cronômetro.
Atualmente, a adesão à Tarifa Branca é ínfima, representando menos de 1% dos consumidores elegíveis. O motivo é claro: o risco. No modelo convencional (Tarifa Verde), o preço do kWh é constante. Na Tarifa Branca, o valor oscila drasticamente ao longo do dia. Entre 18h e 21h, o chamado “horário de ponta”, o custo dispara. Em contrapartida, fora desse intervalo, especialmente no período diurno, os valores são reduzidos.
Para um condomínio, onde a carga de consumo é rigidamente atrelada à segurança e ao conforto, iluminação de áreas comuns, elevadores em horário de pico, portarias eletrônicas e sistemas de vigilância, o deslocamento dessa carga para horários mais baratos nem sempre é viável.
A Aneel defende que a medida é essencial para a eficiência do setor, aliviando a sobrecarga do sistema nos horários de maior demanda e incentivando o uso de energias renováveis, como a solar, durante o dia. Contudo, na visão de gestores condominiais, a mudança transfere a volatilidade do sistema diretamente para o orçamento coletivo.
A previsibilidade é o pilar da saúde financeira de um condomínio. Um modelo que penaliza financeiramente o uso da energia justamente quando os moradores chegam em casa exige um nível de controle operacional que muitos prédios ainda não possuem. Sem uma reorganização profunda de rotinas, o condomínio pode ver sua conta de luz saltar significativamente de um mês para o outro.
Estratégias de Adaptação: Onde é possível poupar?
Para enfrentar o aumento dos custos energéticos, a gestão moderna deverá adotar estratégias de precisão quase cirúrgica, reprogramando o uso de determinadas cargas de forma racional e eficiente. A lógica que se impõe é a de deslocar o funcionamento de equipamentos não essenciais ao fluxo de pessoas nos horários de maior demanda, especialmente no início da noite, quando o consumo atinge picos críticos.
Nesse contexto, os sistemas de irrigação e bombas de piscina devem ser acionados exclusivamente em períodos de menor impacto, como durante a madrugada ou no meio do dia, evitando sobrecarga no horário de ponta.
Da mesma forma, as manutenções de elevadores precisam ser cuidadosamente planejadas para não ocorrerem entre 18h e 21h, intervalo em que o consumo de energia para partidas é mais elevado e pode comprometer a estabilidade da rede. Por fim, a recarga de veículos elétricos torna-se inviável nesse mesmo período, exigindo a adoção de carregadores inteligentes capazes de bloquear automaticamente o processo nos horários críticos, garantindo que a demanda seja distribuída de maneira equilibrada ao longo do dia.
Assim, a gestão energética eficiente não se resume apenas à redução de custos, mas à construção de um modelo sustentável de uso racional da infraestrutura, capaz de conciliar conforto, segurança e economia sem comprometer a qualidade dos serviços oferecidos.
O debate no Brasil ocorre enquanto outros países testam caminhos opostos. Na Austrália, por exemplo, o foco tem sido o incentivo positivo. Em vez de encarecer o horário de pico de forma compulsória, programas oferecem “energia gratuita” ou subsidiada em janelas de excesso de geração solar (meio-dia). Essa abordagem busca o engajamento do consumidor pelo benefício, e não pelo receio da multa tarifária, preservando a estabilidade financeira das famílias e condomínios.
O Papel do Síndico como Gestor de Riscos e Estrategista Energético
Com a consulta pública aberta pela Aneel até 9 de março de 2026, o momento exige uma mobilização que vai além da simples ciência dos fatos. O síndico moderno deixa de ser um mero pagador de faturas para assumir o papel de estrategista energético. Neste novo cenário, a energia elétrica deixa de ser um custo fixo incontrolável para se tornar uma variável de risco que pode desestabilizar toda a saúde financeira do condomínio.
Ocupar-se dessa pauta agora não é apenas uma escolha administrativa, mas uma medida de proteção do patrimônio coletivo. A inércia diante da transição para a tarifa horária padrão pode resultar em surpresas orçamentárias catastróficas e, consequentemente, no aumento abrupto das cotas condominiais. Em um ambiente de governança rigorosa, a falha em avaliar os riscos da Tarifa Branca pode ser questionada pelos condôminos como falta de zelo com o fluxo de caixa, especialmente se não houver um plano de
A responsabilidade do gestor amplia-se para a esfera educativa. Caberá ao síndico liderar a mudança de cultura interna, comunicando com transparência que a economia de energia agora possui hora marcada. É seu papel estratégico identificar oportunidades de automação, como o uso de sensores inteligentes e temporizadores para bombas e iluminação, que retirem do fator humano o risco de erro na gestão do relógio.
A participação no debate técnico junto à Aneel é vital e urgente. O síndico deve atuar como o porta-voz dos interesses da coletividade, enviando contribuições através do e-mail cp046_2025@aneel.gov.br. Em um cenário econômico onde a inadimplência ainda é um gargalo sensível para muitas administrações, a proteção do caixa condominial passa, invariavelmente, por entender e dominar a nova métrica do relógio de luz.
Dominar a Tarifa Branca não é mais uma opção técnica para engenheiros, mas uma ferramenta de sobrevivência orçamentária para o síndico que deseja garantir a sustentabilidade financeira e a valorização do imóvel a longo prazo.


