Participação ativa da comunidade é essencial
Há algumas semanas, o caso do adolescente que invadiu condomínios em mais de seis estados pela portaria, sem violência, chocou o Brasil. Apesar de às vezes contar com comparsas, muitas vezes ele agia sozinho. Bem-vestido e com atitude ‘descolada’, conseguia fazer com que porteiros abrissem a porta para ele. Quando não era reconhecido ainda falava ‘você não sabe quem eu sou? Vou mandar meu pai te mandar embora”.
Atualmente o jovem está recolhido em um local para infratores menores de idade, mas seus furtos somam muitos milhões de reais em prejuízo.
A pergunta aqui é: ele conseguiria entrar no seu condomínio?
Todas as fontes ouvidas pelo Universidade Condominial concordaram: a grande maioria dos condomínios não conta com procedimentos de segurança claros. Por isso, os funcionários, muitas vezes, não se sentem confiantes para deixar uma pessoa para fora, esperando.
“O porteiro, controlador de acesso, deve ter tranquilidade para seguir os procedimentos à risca. E quem dá essa condição para ele é o síndico e os moradores. O colaborador não pode perder seu trabalho”, afirma Rose Schiapati, executiva sênior da administradora Sell, em São Paulo.
Nilton Migdal, especialista em segurança condominial e patrimonial, argumenta que “segurança e conforto não andam juntos. Às vezes, as pessoas preferem mais vulnerabilidade”.
Isso porque, de fato, um projeto de segurança bem estruturado vai impactar no dia a dia dos moradores, visitantes e trabalhadores do local – tanto daqueles do condomínio como quem trabalha nas unidades.
“A gente também escuta muito dos moradores que os funcionários estão treinados, mas cada vez mais os bandidos estão mais sofisticados”, pesa Roberto Piernikarz, sócio proprietário da administradora BBZ.
Como ter uma melhor segurança no seu condomínio
O case do adolescente invasor também serve para mostrar como a maioria das invasões começa: pela portaria.
“Esse segue sendo um grande gargalo da segurança dos condomínios. Na maioria das invasões desse tipo, o bandido entra como carona, mesmo quando há clausura”, explica o especialista em segurança José Elias de Godoy.
Por isso, é fundamental que os moradores e visitantes não permitam que desconhecidos entrem junto com eles.
“Às vezes a pessoa não sabe se é vizinho ou não, prefere não falar nada. Mas temos que acostumar que digam que não sabem quem é aquele terceiro”, aponta Elias.
A portaria deve, portanto, ter os seus procedimentos claros para serem seguidos por todos. O porteiro, por sua vez, deve ter autonomia para seguir o regramento votado e aprovado previamente em assembleia.
“Ao iniciar o trabalho em um condomínio, começo analisando a vulnerabilidade física e o nível tecnológico dos equipamentos de segurança. Depois, observo as normas e procedimentos – o que a grande maioria não tem. Por último, confiro o nível de recursos humanos do condomínio”, aponta Migdal.
Com base nesses apontamentos, normas e procedimentos são propostos. E, se aceitos em assembleia, devem ser cumpridos por todos a partir dali.
Outro ponto que deve ser ressaltado é o treinamento dos funcionários.
“Treinamos os porteiros e controladores de acesso na guarita, de acordo com os recursos que eles dispõem no dia a dia. E, todo mês, fazemos uma ‘pegadinha’, uma simulação, para saber se eles estão em dia com o que ensinamos. É funcionário da prefeitura, de laboratório, médico, mulher grávida desmaiando na porta do condomínio… tudo para saber se eles vão saber reagir corretamente a essas tentativas de invasão”, aponta.
Para Eytan Magal, consultor de segurança especializado em condomínios e empresas, outras formas de treinamento também podem ser oferecidas com benefício à segurança do condomínio.
“Oferecemos uma plataforma de gamificação para que os porteiros estejam sempre atualizados. Entendemos que não há resultado sem capacitar a linha de frente. É algo que precisa de disciplina, todos os dias”, argumenta.
Tecnologia e segurança para condomínios
A tecnologia é um dos pilares da segurança, e ela não fica de fora quando o assunto é condomínio. Mas ela deve estar de braços dados, sempre, com os procedimentos de segurança.
“A gente vê como as câmeras faciais evoluíram nos últimos anos, estão cada vez melhores. Mas tudo precisa estar bem amarrado com as normas do condomínio”, aponta Roberto Piernikarz.
As câmeras faciais podem ser o ponto principal para evitar que alguém entre se passando por outra pessoa no condomínio.
“Muitas vezes vejo que a liberação de entrada na garagem é feita pela placa do carro, ou por um dispositivo do automóvel. O ideal é que isso ocorra no primeiro portão, antes de entrar na clausura. No segundo portão, já em segurança, o mesmo pode ser aberto pela facial ou por uma câmera que permita ao funcionário visualizar quem está dentro do veículo”, explica Migdal.
Importante lembrar que não só a qualidade das imagens melhorou, como seu armazenamento também.
“Antigamente, invadiam o condomínio, desligavam as câmeras e levavam o material gravado. Hoje fica tudo na nuvem, o que facilita bastante”, aponta Elias.
Para além dos muros do condomínio, em muitas cidades prédios têm apostado em totens com câmeras de segurança em sua entrada, que servem para vigiar a rua – e que podem ser integrados a outras câmeras das imediações.
“Projetos como esses, alinhados a iniciativas como a Smart Sampa, aqui de São Paulo, permitem uma vigilância remota, e que se une em uma rede de informações úteis para toda a cidade”, aponta Rose Schiapati.
Procedimentos e infraestrutura de segurança no condomínio
Confira abaixo um apanhado das dicas dos consultores de segurança ouvidos pelo Universidade Condominial:
- Clausura na portaria e na garagem: permitem que pessoas e veículos sejam identificados com mais segurança
- Identificação facial: melhor do que tags ou cartões, já que inviabilizam a entrada no condomínio por terceiros
- Procedimentos para entrada de visitantes e prestadores de serviços: os moradores devem fazer sua parte e informar corretamente sobre a necessidade de documentos ou outros dados, assim como fotos
- Treinamento periódico de porteiros e controladores de acesso
- Cerca elétrica funcionando em todo o perímetro
- Cadastro atualizado de quem mora no condomínio: moradores devem avisar quando um funcionário ou prestador de serviço não trabalha mais no local, evitando assim sua livre entrada
- CFTV funcionando, com câmeras com resolução de acordo com o ambiente
- Boa iluminação de todo o perímetro do condomínio
“Cada condomínio tem o seu DNA. Isso, aliado à sabedoria do síndico e conselho, deve ser ajustado ao nível de segurança desejado pela comunidade. Se não, os procedimentos de segurança vão mudar sempre, gestão após gestão”, analisa Eytan Magal.
Furtos internos no condomínio: como mitigar essa situação?
Outro cenário que vem preocupando cada vez mais síndicos é a onda de furtos dentro dos condomínios, feita pelos próprios moradores.
São objetos subtraídos das unidades, quando não estão trancadas, ou dos automóveis, também deixados abertos, na garagem.
Aqui, o síndico também pode apostar em câmeras para o espaço que, novamente, tenham qualidade para identificar quem está andando pelas áreas comuns.
“Ao fazer um projeto de segurança, estou voltado contra um inimigo externo. Não estou preocupado com isso [furtos de moradores]. O ideal é que o morador seja sempre uma vítima mais difícil no seu condomínio. Tranque o carro e a porta de casa”, ensina Migdal.
Seja um problema interno ou externo, é fundamental que toda a comunidade esteja a par das regras, e coopere, com os procedimentos de segurança do condomínio. Essa é a melhor forma de tornar o empreendimento um alvo mais difícil para quem tem más intenções com os bens alheios.